Ele vendeu o carro pela internet, recebeu um comprovante falso e a polícia achou mais 29 anúncios
Comprovante enviado pelo comprador não prova pagamento. Em SC, um caso assim levou a 29 anúncios e R$ 850 mil em negociações. Veja o que conferir.

O comprovante de transferência que o comprador manda pelo celular não prova que o dinheiro entrou, e a única conferência que vale antes de entregar o carro é a do extrato da sua própria conta. Foi esse o ponto de partida de uma investigação da Polícia Civil de Santa Catarina que, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, identificou 29 anúncios fraudulentos, com negociações que somam cerca de R$ 850 mil, e levou a uma operação em 9 de outubro de 2026 no Rio Grande do Sul.
Já escrevi sobre o vendedor que entregou a moto ao intermediário e o Pix nunca caiu e sobre a mensagem de falso suporte que diz que o pagamento foi aprovado. Neste caso a mecânica é mais simples e por isso mesmo engana mais, porque não há terceiro nem link, só um arquivo que parece o comprovante de um banco. Li a nota oficial do Ministério e as reportagens do g1 SC e do Jornal TopNews para separar o que a polícia afirmou do que ainda está em apuração.
Como começou a investigação do comprovante falso?
Começou com uma vítima de Florianópolis que negociou a venda do carro pela internet, recebeu do comprador um comprovante de pagamento e entregou o veículo. Segundo a Polícia Civil, ouvida pelo g1 SC, o comprovante era falso e serviu para levar o carro sem que o dinheiro fosse transferido de verdade, e o Jornal TopNews registra que o valor nunca foi creditado na conta da vítima.
A partir desse caso, os investigadores da Delegacia de Combate a Estelionatos da capital catarinense chegaram a outros anúncios ligados ao mesmo grupo, o que mostra que a vítima de Florianópolis não foi a única.
Como o grupo chegava ao vendedor?
De acordo com a investigação, os suspeitos usavam perfis falsos em plataformas de comércio eletrônico para abordar quem anunciava veículo, acertavam a compra e apresentavam comprovantes de transferência bancária falsificados, obtendo os bens sem pagar. O g1 descreve o mesmo roteiro e fala em perfis falsos na plataforma de marketplace, sem dizer qual, e nenhuma das fontes dá o nome da plataforma.
O golpe funciona porque o vendedor está ansioso para fechar e o comprovante chega com cara de documento oficial, com logotipo, valor, data e número de autenticação. Montar um arquivo assim leva minutos, e quem confere só a imagem confere o trabalho do golpista, e não o próprio saldo.
Quais números a polícia divulgou?
O Ministério da Justiça informou 29 anúncios fraudulentos, envolvendo negociações que somam aproximadamente R$ 850 mil, e a expedição de cinco mandados de prisão temporária e quatro de busca e apreensão. O g1 fala em pelo menos 29 anúncios e negociações fraudulentas e em prejuízo estimado de R$ 850 mil, e por isso uso a formulação do Ministério, que trata o valor como soma de negociações e não como prejuízo já confirmado.
As diligências aconteceram em Porto Alegre, Arroio do Sal e Caxias do Sul, com apoio do Laboratório de Operações Cibernéticas, o Ciberlab, do Ministério da Justiça, e da Polícia Civil do Rio Grande do Sul. O delegado responsável, Osmar Carraro Júnior, afirmou na nota oficial que os criminosos usam cada vez mais as plataformas digitais para aplicar golpes.
Quantas pessoas foram presas?
As fontes falam em mandados de prisão temporária, e não em número de presos confirmado, e por isso não escrevo que cinco pessoas foram presas. Até 23 de outubro de 2026, quando conferi, não localizei notícia de indiciamento, denúncia ou soltura dos investigados, e o TopNews informa que a investigação continua para esclarecer a participação de cada suspeito e identificar outras vítimas.
O vendedor era obrigado a entregar o carro antes de ver o dinheiro?
Não era, e é aqui que a regra do Código Civil ajuda quem está negociando. O artigo 476 do Código Civil diz que, nos contratos bilaterais, nenhum dos contratantes pode exigir a prestação do outro antes de cumprir a sua, o que significa que o vendedor pode segurar a chave até o pagamento estar de fato na conta, sem que isso seja quebra do negócio.
Quando o carro já foi entregue e o dinheiro não veio, o artigo 475 do mesmo Código permite à parte lesada pedir a resolução do contrato ou exigir o cumprimento, com perdas e danos. Na prática, o problema é encontrar quem usou perfil falso, e é por isso que o registro da ocorrência e a guarda das conversas pesam tanto quanto a regra.
E a transferência de propriedade do veículo?
O artigo 134 do Código de Trânsito Brasileiro manda o antigo dono comunicar a venda ao órgão de trânsito quando o comprador não providencia o novo registro, sob pena de responder solidariamente pelas penalidades até a data da comunicação. Para quem caiu no golpe e já assinou a transferência, a comunicação e o boletim de ocorrência ajudam a mostrar que o carro saiu da sua posse por fraude, e para quem ainda está negociando a recomendação do TopNews é a mesma do extrato, ou seja, só assinar depois de ver o crédito na própria conta.
O que fazer agora
Se você está vendendo carro, máquina ou estoque pela internet, a ordem dos passos importa.
- Confira o crédito no aplicativo do seu banco, com o valor já disponível no saldo, e não no print, no PDF ou no e-mail que o comprador manda.
- Só entregue o bem e assine a transferência depois dessa conferência, mesmo que o comprador diga que está com pressa ou que o banco demora para compensar.
- Desconfie de perfil novo, sem histórico e que aceita o preço sem negociar, que é o padrão de abordagem descrito pela polícia.
- Guarde a conversa, o anúncio, o perfil do comprador e o comprovante recebido, com print que mostre data e hora, seguindo a lógica de o que reunir quando a conta é banida.
- Se o carro já foi entregue, registre a ocorrência e comunique a venda ao órgão de trânsito, para que fique documentado quando e como o veículo saiu da sua posse.
O que acontece em cada caso depende das provas daquela negociação, que precisam ser analisadas individualmente.
Perguntas frequentes
Comprovante de transferência enviado pelo comprador prova o pagamento?
Não prova, porque é um arquivo que pode ser montado. No caso investigado pela Polícia Civil de Santa Catarina, o grupo apresentava comprovantes de transferência bancária falsificados para levar os veículos sem pagar, segundo o Ministério da Justiça.
Como confirmar que o dinheiro da venda entrou?
Abrindo o aplicativo ou o extrato da sua própria conta e conferindo o valor já disponível no saldo. A orientação registrada pelo Jornal TopNews é confirmar o crédito diretamente na conta bancária antes de entregar o carro ou fazer a transferência de propriedade.
Quantos anúncios e qual valor a polícia identificou?
O Ministério da Justiça informou 29 anúncios fraudulentos, com negociações que somam aproximadamente R$ 850 mil. A operação ocorreu em 9 de outubro de 2026, com cinco mandados de prisão temporária e quatro de busca e apreensão em Porto Alegre, Arroio do Sal e Caxias do Sul.
Posso me recusar a entregar o carro até o dinheiro cair?
Pode. O artigo 476 do Código Civil diz que, nos contratos bilaterais, nenhuma das partes pode exigir a prestação da outra antes de cumprir a sua, e o pagamento é a parte do comprador.
Qual plataforma foi usada no golpe?
Nenhuma das fontes informa. O Ministério da Justiça fala em plataformas de comércio eletrônico e o g1 em plataforma de marketplace, sem dar o nome.
Fontes
- Ministério da Justiça e Segurança Pública, 09/10/2026
- Polícia Civil de Santa Catarina, operação contra fraudes na compra e venda de veículos em marketplace
- g1 SC, 09/10/2026
- Jornal TopNews, 10/10/2026
- Código Civil, Lei 10.406/2002, artigos 475 e 476
- Código de Trânsito Brasileiro, Lei 9.503/1997, artigo 134
