O golpista ligou primeiro para o hospital, confirmou os dados dos pacientes e só depois pediu Pix às famílias
No golpe do falso médico, o criminoso usa dados reais da internação para pedir Pix à família. No Paraná, ele ligou antes ao hospital, que confirmou os dados.

No golpe do falso médico, alguém se apresenta como médico ou funcionário do hospital e, com dados verdadeiros da internação, pede à família um Pix urgente por remédio ou exame. Em Laranjeiras do Sul, no Paraná, em 5 de setembro de 2026, o golpista foi buscar esses dados no próprio hospital, porque, segundo a Polícia Militar, ligou como se fosse funcionário da Central de Leitos, usou o nome de um médico e pediu a uma funcionária que confirmasse dados de pacientes que aguardavam regulação, e depois os familiares passaram a receber mensagens e ligações do mesmo número, até que a filha de um paciente perdeu R$ 554.
O caso foi noticiado em 7 de setembro de 2026 pelo G1 Paraná, pela Paiquerê FM News e pela Banda B. Li também a nota da Fundação Municipal de Saúde de Teresina reproduzida pelo 40graus em 2 de setembro, o texto do projeto Comprova publicado pela GZH em 16 de setembro e a Tribuna de Minas de 18 de setembro.
Como o golpista conseguiu os dados em Laranjeiras do Sul?
A Central de Leitos, explica o G1, é o serviço do SUS que distribui as vagas de internação e as transferências de pacientes, e por isso uma ligação em nome dela pedindo confirmação de dados soa como rotina para quem atende o telefone. Depois que a unidade confirmou as informações, o homem passou a se apresentar às famílias como o mesmo médico e a pedir Pix para remédios que, segundo ele, o SUS demoraria três dias para fornecer. Pelo menos três pessoas foram procuradas e uma pagou, e só percebeu o golpe quando o criminoso pediu um novo Pix e o outro banco não aceitou a transação.
A Polícia Militar registrou a ocorrência, e a Polícia Civil informou à Banda B que instaurou inquérito para apurar estelionato eletrônico. O G1 relata ainda que um golpe semelhante, com o nome do mesmo médico, tinha sido aplicado quatro meses antes em Toledo, no oeste do Paraná. As matérias falam em mensagens e ligações, sem dizer por qual aplicativo, e até o fechamento deste texto não encontrei notícia de suspeito identificado nem manifestação pública do hospital.
O golpe do falso médico acontece só no Paraná?
Não, porque em Teresina a Fundação Municipal de Saúde alertou em 2 de setembro de 2026 que famílias de pacientes das UTIs do Hospital de Urgência receberam pelo WhatsApp mensagens de um número desconhecido, com a foto de um homem vestido de médico, que falava em hemorragia e pedia cerca de R$ 1.600 por uma tomografia urgente. A fundação lembrou que o hospital é público e não cobra por exame ou procedimento.
O Comprova registra que a fraude é recorrente em vários estados, e a estrutura é a mesma do golpe do falso advogado no WhatsApp, em que a foto de um profissional de confiança e um dado verdadeiro fazem a vítima baixar a guarda, e lembra o golpe da voz clonada, em que a voz de um parente basta para o Pix sair.
De onde saem os dados do paciente?
O Comprova cita o painel da Agência Nacional de Proteção de Dados, que registra 43 comunicações formais de incidentes de segurança no setor de saúde entre janeiro e o início de setembro de 2026, 88% delas no setor privado, mas a Tribuna de Minas ressalva que isso não significa que esses incidentes tenham relação com o golpe do falso médico, ligação que nenhuma fonte demonstra.
O caso do Paraná mostra um caminho em que nenhum sistema foi invadido, porque bastou um telefonema. A ANPD define incidente de segurança como o evento que compromete a confidencialidade dos dados pessoais, por ação voluntária ou acidental, independentemente do meio em que estão armazenados, e na nossa leitura a confirmação de dados por telefone a quem não deveria recebê-los cabe nessa descrição, embora nenhuma fonte diga que o hospital comunicou o caso à agência.
O que a lei exige da clínica e do hospital?
A Lei Geral de Proteção de Dados classifica o dado referente à saúde como dado pessoal sensível, no artigo 5º, e manda quem trata esses dados adotar medidas de segurança, técnicas e administrativas, capazes de protegê-los de acessos não autorizados, no artigo 46. Medida administrativa, na rotina de uma recepção, é regra escrita e treinada sobre o que se confirma por telefone e para quem, e a própria Secretaria da Saúde do Paraná orientou pacientes e instituições a não fornecerem dados em contatos suspeitos.
Quando o dado sai e isso pode trazer risco ou dano relevante, o artigo 48 manda comunicar a ANPD e o titular, no prazo de três dias úteis informado pela agência. O artigo 42 obriga a reparar o dano causado por tratamento de dados em violação à lei, e o Comprova lembra a orientação do Idec de que a vítima pode pedir reparação ao hospital e ao plano de saúde, mas a Tribuna de Minas pondera que a aplicação dessa regra a uma fraude assim depende do caso concreto. Nada disso quer dizer que o hospital de Laranjeiras do Sul descumpriu a lei, o que só uma apuração pode dizer.
Como saber se o pedido de Pix é golpe?
Pelo próprio pedido, porque o Comprova registra que hospitais públicos e privados não cobram exame, remédio ou procedimento por telefone ou WhatsApp, e que Pix em nome de pessoa física, em vez do CNPJ do hospital, é sinal de fraude.
O que fazer agora
Se você recebeu o pedido:
- Não pague nem passe dados, por mais grave que pareça o quadro.
- Ligue para o número oficial do hospital, o do folheto de internação, do site ou da recepção, e não retorne para o número que procurou você.
- Procure o Serviço Social ou a Ouvidoria da unidade.
- Se já pagou, avise o banco na hora e peça a devolução do Pix, que o Banco Central manda registrar em até 80 dias, guarde mensagens e comprovante e registre boletim de ocorrência.
Se você atende o telefone de uma clínica ou de um hospital:
- Não confirme dado de paciente a quem liga, mesmo que se apresente como médico ou como central de regulação.
- Devolva a ligação pelo número oficial do serviço que diz estar pedindo, como se faz com o banco no golpe da falsa central.
- Avise as famílias na internação de que a unidade não cobra por telefone nem por WhatsApp.
- Se o dado já saiu, comunique a direção e o encarregado de dados, avise as famílias e registre a ocorrência.
Cada caso depende de como o dado saiu e do que a unidade fez depois, e merece análise individual.
Perguntas frequentes
O que é o golpe do falso médico?
É a fraude em que alguém se passa por médico ou funcionário do hospital e, com dados reais da internação, pede Pix à família por remédio, exame ou procedimento urgente.
Hospital cobra exame ou remédio por WhatsApp?
Não, segundo o projeto Comprova, que registra que hospitais públicos e privados não cobram por telefone nem por WhatsApp. A Secretaria da Saúde do Paraná lembra que o SUS é gratuito.
O hospital pode confirmar dados de paciente por telefone?
A LGPD trata dado de saúde como sensível e exige medidas de segurança contra acesso não autorizado. A Secretaria da Saúde do Paraná orienta as instituições a não fornecer dados em contatos suspeitos.
Os incidentes do painel da ANPD causaram o golpe?
Não há essa demonstração. O painel registra 43 comunicações de incidentes no setor de saúde entre janeiro e o início de setembro de 2026, sem ligação comprovada com o golpe.
Paguei o Pix ao falso médico. O que faço?
Avise o banco e peça a devolução, que o Banco Central manda registrar em até 80 dias da data do Pix, guarde as mensagens e registre boletim de ocorrência.
Fontes
- G1 Paraná, 07/09/2026, atualizada em 08/09/2026
- Paiquerê FM News, 07/09/2026
- Banda B, 07/09/2026, atualizada em 08/09/2026
- 40graus, nota da Fundação Municipal de Saúde de Teresina, 02/09/2026
- GZH, projeto Comprova, 16/09/2026
- Tribuna de Minas, 18/09/2026
- Lei Geral de Proteção de Dados, Lei 13.709/2018, artigos 5º, 42, 46 e 48
- ANPD, Comunicação de Incidente de Segurança
- Banco Central, Mecanismo Especial de Devolução, 18/09/2026
