A voz no áudio era a do irmão, e o Pix de quase R$ 28 mil foi parar com golpistas
No golpe da voz clonada, criminosos imitam com IA a voz de um parente para liberar um Pix. Em Campo Grande, um empresário perdeu quase R$ 28 mil assim.

No golpe da voz clonada, criminosos usam inteligência artificial para imitar a voz de um parente ou de um amigo e, falando como ele, confirmam um negócio ou pedem um pagamento. Em Campo Grande, o dono de uma oficina mecânica perdeu quase R$ 28 mil por Pix na compra de um carro depois de receber o contato de alguém que falava como o irmão dele, num caso que o g1 tornou público em 19 de setembro de 2026.
A reportagem original é do g1, e li o relato dela em três veículos que a reproduzem com crédito: o Hoje Cidades e o CPG Click Petróleo e Gás, ambos de 20 de setembro, e o Jornal O Sul, de 1º de outubro.
Como foi o golpe da voz clonada em Campo Grande?
Segundo as matérias, o empresário encontrou um carro anunciado por um valor compatível com o de mercado, e o suposto vendedor disse estar em Ponta Porã, cidade onde ele nasceu e ainda tem família. Como mora em Campo Grande, ele passou o contato do próprio irmão para que o veículo fosse visto pessoalmente.
Foi a partir daí que os criminosos passaram a se apresentar como o irmão. A vítima contou que recebeu o contato como se fosse dele, dizendo que já tinha visto o carro, com vídeo e a informação de que estava tudo certo, e que acreditou mesmo estando atenta aos golpes que circulam, porque quem falava parecia ser uma pessoa da família. Ele fez o Pix para pagar o veículo, e os golpistas bloquearam o contato logo em seguida.
Repare na ordem dos fatos, porque o anúncio com preço normal não levantava suspeita e o golpe só entrou quando o comprador delegou a vistoria a alguém de confiança, que foi a pessoa imitada.
Por que a voz conhecida convence tanto?
Porque quem ouve reconhece o timbre antes de avaliar o pedido. A especialista em direito digital ouvida pelo g1 explica que o golpe combina engenharia social com clonagem de voz por inteligência artificial e que o criminoso não precisa invadir a conta bancária, já que convence a própria vítima a fazer a transferência. Segundo o CPG, os golpistas juntam antes o que está publicado em rede social, como nomes de parentes, fotos, profissão e viagens, e costumam ligar de um número novo alegando troca de aparelho.
A mesma reportagem lista sinais que tendem a aparecer juntos: número que você nunca usou para falar com aquela pessoa, pressa fora do comum, insistência para que ninguém mais da família seja consultado, pedido de transferência para conta de terceiro e desculpas repetidas para não fazer uma chamada de vídeo.
O golpe da voz clonada já apareceu em outros casos?
Sim, e dois deles ajudam a ver o padrão. Na mesma reportagem, a mãe de uma estudante de Campo Grande negociava um carro quando recebeu mensagens, um áudio e um vídeo de alguém que se passava pela filha, dizendo que já estava na oficina, que o mecânico de confiança da família tinha aprovado o veículo e que o pagamento podia ser feito por Pix antes do horário marcado para a avaliação. Segundo o Jornal O Sul, o golpista usou dados reais sobre a oficina e sobre o profissional que atendia a família. A mãe resolveu confirmar direto com a filha, soube que ela não estava no local e que o áudio tinha sido gerado por inteligência artificial, e não pagou.
Dois meses antes, em 22 de julho de 2026, o Enfoque MS noticiou que um morador da capital perdeu R$ 20 mil em duas transferências depois de receber uma mensagem de voz que parecia ser de um amigo, a quem ele tinha pedido que olhasse um carro anunciado em outra cidade. A matéria trata a clonagem por inteligência artificial como suspeita.
Nos três relatos o carro está longe, a conferência fica com uma pessoa de confiança e a confirmação falsa chega com a voz dela. É um roteiro parecido com o do anúncio de retroescavadeira no Facebook, também em Mato Grosso do Sul, com a diferença de que agora o golpista fabrica a confirmação que faltava.
Dá para recuperar o Pix feito no golpe?
Às vezes em parte, e depende da rapidez. O caminho oficial é o Mecanismo Especial de Devolução, o MED, acionado no próprio banco, pelo aplicativo ou pelos canais oficiais. Segundo o CPG, que cita o g1, o empresário procurou o banco horas depois do Pix, registrou boletim de ocorrência, pediu a contestação pelo MED e conseguiu reaver cerca de 20% do valor.
A explicação está no funcionamento do mecanismo, porque a devolução depende de ainda existir saldo na conta de quem recebeu, como ressalva a Febraban na nota citada pelo CPG. O Let's Money registrou em 1º de setembro de 2026 que a vítima tem 80 dias, contados da transferência, para pedir a devolução, e que o Banco Central informou em 2025 uma recuperação média de 9,3% do valor contestado. O prazo é longo, mas as primeiras horas contam mais do que os 80 dias.
Isso vale para pagamento da empresa liberado por áudio?
Vale, e é onde o risco cresce. Em muita empresa pequena o financeiro paga fornecedor porque o dono mandou um áudio, e a orientação dos especialistas ouvidos na reportagem é parar de tratar voz ou vídeo como prova única de identidade. No golpe do falso diretor bastou uma foto no WhatsApp para pedir cerca de R$ 29 mil, e no golpe do falso advogado por videochamada o alvo já era a imagem do rosto da vítima.
O que fazer agora
Antes de pagar:
- Ligue de volta para o número antigo da pessoa, o que já estava salvo, e não para o contato que acabou de chamar.
- Combine uma palavra de segurança com a família e com quem aprova pagamento na empresa, para usar em qualquer pedido de dinheiro.
- Confira o nome de quem vai receber o Pix na tela do banco antes de confirmar, e pare se a conta for de terceiro.
- Desconfie da pressa, principalmente do pedido para pagar antes da vistoria ou do horário combinado.
Se o Pix já saiu:
- Acione o banco na hora, pelo aplicativo ou canal oficial, e peça a contestação pelo MED.
- Registre boletim de ocorrência e leve o documento ao banco.
- Guarde os áudios, vídeos, mensagens, o anúncio, o comprovante e o protocolo do atendimento.
- Avise a pessoa que teve a voz usada, para que ela alerte os próprios contatos.
Cada caso depende do tempo de reação, da resposta do banco e das provas guardadas, e isso merece análise individual.
Perguntas frequentes
O que é o golpe da voz clonada por IA?
É a fraude em que criminosos usam inteligência artificial para imitar a voz de um parente ou conhecido e, com ela, pedem um pagamento ou confirmam um negócio. Nos casos de Mato Grosso do Sul, a voz falsa dizia que o carro anunciado já tinha sido vistoriado.
Como os golpistas conseguem imitar a voz de alguém?
Segundo a reportagem do g1 reproduzida pelo CPG, as ferramentas copiam timbre e entonação a partir de poucos segundos de áudio, e os criminosos completam a abordagem com informações de rede social.
Como confirmar se o áudio é mesmo da pessoa?
Ligando para o número que você já tinha dela e confirmando por esse canal. A orientação dos especialistas ouvidos na reportagem é não tratar voz nem vídeo como prova única de identidade.
Fiz um Pix para golpista, consigo o dinheiro de volta?
Depende. O pedido é feito ao seu banco pelo Mecanismo Especial de Devolução, e a devolução depende de haver saldo na conta que recebeu. No caso de Campo Grande, segundo o CPG, a vítima recuperou cerca de 20%.
Qual é o prazo para pedir a devolução pelo MED?
Segundo o Let's Money, a vítima tem 80 dias, contados da transferência original, para pedir a devolução no próprio banco. Quanto antes o pedido é feito, maior a chance de ainda existir saldo para bloquear.
Fontes
- Hoje Cidades, 20/09/2026, a partir de reportagem do g1
- CPG Click Petróleo e Gás, 20/09/2026, a partir de reportagem do g1
- Jornal O Sul, 01/10/2026
- Enfoque MS, 22/07/2026
- Let's Money, 01/09/2026
