O vídeo era do chalé de verdade, o anúncio era de outro perfil e a hóspede chegou a Pirenópolis sem reserva
Golpistas usaram o vídeo real de um chalé de Pirenópolis em anúncio pago de perfil falso no Instagram. Veja o que o hóspede e o dono da pousada podem fazer.

No golpe da falsa reserva, o golpista pega o vídeo e as fotos que a própria hospedagem publicou, patrocina esse material num perfil que não é o dela e atende pelo WhatsApp quem clica no anúncio, até receber o Pix. Foi o que uma influenciadora de Brasília contou ter vivido no fim de semana do feriado de 7 de setembro de 2026, quando chegou a Pirenópolis, em Goiás, com a hospedagem paga, cerca de R$ 1.900, e ouviu no chalé que não havia reserva em seu nome.
O relato saiu no Portal 6, em 19 de setembro de 2026, no Diário do Estado, em 10 de setembro, e no Correio Braziliense, em 14 de setembro. Li as três matérias inteiras e fui também à Central de Ajuda do Instagram e ao Banco Central, porque as reportagens falam com quem reserva e quase nada dizem ao dono do estabelecimento que descobre o próprio vídeo no anúncio de outro perfil.
O que aconteceu em Pirenópolis?
Segundo o Portal 6, o anúncio patrocinado mostrava o chalé e a piscina num vídeo de aparência profissional, e o clique levava ao WhatsApp de pessoas que se apresentavam como responsáveis pela hospedagem. O Correio Braziliense registra que o anúncio estava no Instagram e que os atendentes mandaram imagens e um contrato. Ela contou que ninguém a pressionou, que o pagamento no cartão deu erro várias vezes e que então pagou o valor integral por Pix, para um CNPJ de outro estado.
Ao chegar, ouviu dos responsáveis que a hospedagem existia, que eles não tinham feito aquela reserva e que o perfil da negociação não era o oficial. O Diário do Estado acrescenta que a administração do chalé informou a ela que as imagens do local estavam sendo usadas indevidamente por golpistas e que não era a primeira vez, e que a ocorrência registrada na Delegacia Virtual foi encaminhada à Delegacia de Polícia de Pirenópolis como suspeita de estelionato. Até o fechamento deste texto, não encontrei notícia de identificação dos autores nem manifestação pública do estabelecimento.
Por que o anúncio com o vídeo verdadeiro convence?
Porque o lugar existe, o vídeo foi feito pelo próprio estabelecimento e o atendimento é paciente, de modo que cada conferência que o hóspede faz acaba confirmando a história do golpista. A própria vítima avalia, segundo o Portal 6, que pegaram o vídeo original e o patrocinaram numa conta falsa, o que é uma hipótese dela, e não uma conclusão da polícia.
Pirenópolis já conhecia esse roteiro, porque em 16 de dezembro de 2025 a Tribuna do Planalto noticiou uma operação policial contra um grupo suspeito de clonar sites e perfis de pousadas da cidade, principalmente no Instagram, com negociação pelo WhatsApp, Pix antecipado e contratos falsos. Nenhuma fonte liga o caso de setembro de 2026 a esse grupo, mas o histórico ajuda a entender por que a administração do chalé disse que não era a primeira vez.
Como conferir uma reserva que veio de anúncio?
O especialista ouvido pelo Correio Braziliense recomenda verificar avaliações reais de hóspedes anteriores, desconfiar de perfis recém-criados ou com pouca interação e não concluir a negociação fora do ambiente em que o anúncio apareceu. O turismólogo ouvido pelo Metrópoles, numa coluna de 6 de setembro de 2026 sobre outro golpe de reserva, em Fernando de Noronha, orienta conferir telefone, WhatsApp e e-mail no site oficial do estabelecimento e, na hora do Pix, verificar o beneficiário, o CNPJ e a razão social.
No caso de Pirenópolis, na nossa leitura, o sinal que dava para checar estava no pagamento, porque um CNPJ de outro estado recebendo a diária de um chalé goiano é uma divergência que a tela do banco mostra antes da confirmação.
O que o dono da pousada pode fazer quando vê o próprio vídeo num anúncio?
A primeira providência é guardar prova antes de denunciar, com capturas de tela datadas do anúncio e do perfil e a publicação original, que mostra quem postou primeiro, e a Central de Ajuda do Instagram pede, na denúncia de anúncio, um link direto para ele ou, na falta do link, uma captura de tela.
A segunda é denunciar o anúncio, e pela mesma página o caminho é tocar em Opções no canto superior direito do post patrocinado, escolher Denunciar anúncio e marcar que ele viola direitos de propriedade intelectual. O vídeo e as fotos são obras protegidas pelo artigo 7º da Lei 9.610/1998, e o uso depende de autorização prévia e expressa do autor, conforme o artigo 29. O Instagram avisa, porém, na página de direitos autorais, que só o detentor dos direitos ou seu representante autorizado pode denunciar e que costuma repassar o nome e o e-mail do denunciante a quem postou o conteúdo, de modo que, se o vídeo foi gravado por um profissional de fora, vale conferir com ele quem ficou com os direitos.
A terceira é denunciar o perfil, porque a página de contas impostoras diz que pode ser denunciada a conta que finge ser uma empresa ou organização, pelo caminho Opções, Denunciar, Denunciar conta e Está fingindo ser outra pessoa. Cada denúncia registrada pode servir de prova, como mostramos em o botão de denúncia que virou prova no TJRS, e um caso de conta falsa suspensa por liminar está em perfil falso no Instagram com minhas fotos.
A quarta é avisar os clientes e registrar ocorrência, porque os especialistas mandam o hóspede conferir o contato no site oficial e é o aviso fixado no perfil e no site verdadeiros, com os canais de reserva, que faz essa conferência funcionar, enquanto o boletim de ocorrência deixa registrado que o estabelecimento não tem relação com o anúncio. Nenhuma dessas medidas assegura que o anúncio saia do ar, nem em quanto tempo.
O que fazer agora
Se você pagou a reserva e descobriu o golpe:
- Avise o seu banco na hora e peça a devolução pelo Mecanismo Especial de Devolução do Pix. O Banco Central informa que o pedido deve ser registrado em até 80 dias da data do Pix e que a devolução depende de haver recurso na conta de quem recebeu.
- Guarde o anúncio, a conversa, o contrato e o comprovante.
- Registre boletim de ocorrência na Polícia Civil do seu estado. A Delegacia Virtual do Ministério da Justiça atende doze estados e, para os demais, como Goiás, orienta procurar o serviço on-line do próprio estado.
- Avise a hospedagem verdadeira de que o anúncio está no ar.
Se você é dono do estabelecimento, siga a ordem da seção anterior, com prova, denúncia do anúncio, denúncia do perfil, aviso aos clientes e boletim de ocorrência, guardando cada protocolo.
Cada caso depende das provas e da resposta da plataforma e do banco, e merece análise individual.
Perguntas frequentes
O que é o golpe da falsa reserva de pousada no Instagram?
É quando um perfil que não é o da hospedagem usa fotos e vídeos reais do lugar, muitas vezes em anúncio patrocinado, negocia pelo WhatsApp e recebe por Pix, e o hóspede só descobre ao chegar.
Usaram o vídeo da minha pousada num anúncio de outro perfil. O que faço?
Guarde o link e as capturas de tela, denuncie o anúncio por violação de propriedade intelectual e o perfil por se passar pela sua empresa, avise os clientes e registre boletim de ocorrência.
Paguei a reserva por Pix e era golpe. Dá para pedir o dinheiro de volta?
Dá para pedir. O Banco Central informa que o pedido deve ser feito ao seu banco em até 80 dias da data do Pix, e a devolução depende de haver recurso na conta de quem recebeu.
A pousada responde pela reserva falsa feita com as imagens dela?
Em regra, responde quem aplicou o golpe, e o estabelecimento também teve as imagens usadas sem autorização, mas cada caso depende dos fatos e das provas.
Fontes
- Portal 6, 19/09/2026
- Diário do Estado, 10/09/2026
- Correio Braziliense, 14/09/2026
- Metrópoles, 06/09/2026, atualizada em 08/09/2026
- Tribuna do Planalto, 16/12/2025
- Instagram, denúncia de anúncio por propriedade intelectual
- Instagram, direitos autorais
- Instagram, contas impostoras
- Lei 9.610/1998, artigos 7º e 29
- Banco Central, Mecanismo Especial de Devolução, 18/09/2026
- Delegacia Virtual do Ministério da Justiça
